domingo, 29 de abril de 2012

Ele e ela – (Tags) pretexto, insistência, não!



Só atendeu o telefone por não conhecer o número. Embora ele não o tivesse descoberto se ela não lho tivesse dado, o facto é que ela só lho indicara por presumir que, depois de 30 anos em que  um Cúpido enganador lhe insuflara aquela febre de amor doentio e sem eco, já tivesse passado. 
Se ela conhecesse o número que a estava a atacar de novo, o telemóvel tocaria indefinidamente até se cansar e pensar que não estaria ninguém em casa.
Era o que dava, ela ter objectos sofisticados que não sabia manipular. Por isso nunca gravara o número, que hoje a arrancara da leitura do seu mais recente livro.
Por uma estranha carga de água, ele e ela têm uma afilhada em comum.
Lá no emprego onde se conheceram há 30 anos atrás, calhou ela ser amiga da rapariga de quem, daí a pouco, seria comadre, e ele amigo do pai da criança que, igualmente havia de ser sua afilhada.
Foi o pai a escolher primeiro o padrinho, ele. Com uma condição: o padrinho teria de escolher a madrinha. E ele escolhera-a a ela.
A mãe da criança,  mal ficou grávida, teve-a a  ela como única  pessoa  a apoiá-la naquele emprego  onde toda a gente a criticava,   por o pai da criança ser casado. Por isso, ela  aceitou logo o convite e, um dia, na igreja da terra, ele e ela  tornaram-se  nos padrinhos oficiais de Raquel.
Entretanto, 30 anos passaram desde que ele e ela se conheceram pela primeira vez lá no emprego.
Um dia, quando todos deram conta, já se tinham passado 27 anos e Raquel ia casar, convidando entretanto os padrinhos de baptismo para o casamento. Foi aí que ela lhe indicou o número do telemóvel, porque o de casa nem pensar.
Agora, volta e meia, ele telefona-lhe, como no dia em que a arrancou da leitura para a forçar a ouvir os mesmos pretextos esfarrapados do costume, a que agora acrescenta uma coisa a que ele  chama  ter saudades.
Ela, depois de lhe ter um dito frontalmente que ele apenas a convidara para madrinha de Raquel por estar convencido de que, uma vez que tinham uma afilhada em comum, ela lhe iria abrilhantar os jantares, além de lhe dizer ainda que ambos se encontravam a anos-luz um do outro, já nem se chateia com a insistência.
E vão andar assim, até ele ter a lata de a convidar para jantar ou almoçar e ela lhe dizer, em voz curta e grossa e pela milésima quinta vez:
Não!
E mais uma vez ele vai ouvir o que não gosta, depois de continuar a engendrar os mais esfarrapados pretextos para lhe pôr a vista em cima.

2 comentários:

  1. Enfim, há sempre um «chato» desconhecido, algures, atrás de alguém...

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  2. Mas não havia necessidade...

    Abraço

    Rafaela Plácido

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